domingo, 8 de dezembro de 2013

UMA CALÇADA EM MOEMA

UMA CALÇADA EM MOEMA


DA SÉRIE:
PARECE FICÇÃO

AUTOR: Loamy f. Sá



-Bom dia! Aparecido.
-Bom dia! “Dotor” Valter
-Na luta com a vassoura logo cedo!?
-É... Vassoura, rodo, mangueira...
-Deixa de ser chorão, vaaai...
-É que o senhor não sabe quantas vezes eu limpo bosta de cachorro nesta calçada.
-Aaahahaha!
Valter deu uma gargalhada que ecoou no silêncio da rua. Depois (saindo), passou carinhosamente a mão no ombro de Aparecido e se despediu: - Até a noite Aparecido. “Bosta de cachorro” repetia rindo o Valter.
Aparecido continuou seu serviço: jogou detergente, lavou a calçada e regou a grama. Depois ajeitou a placa com o aviso: "NOSSA CALÇADA NÃO É BANHEIRO DE CACHORRO’. Voltou então para reassumir seu posto na cabine de segurança. Mal se sentou e... Lá vem a madame de nariz empinado com seu cachorrinho também de nariz empinado. De repente o lulu pára, se acomoda todo e... “Puta-que-pariu! E é dos moles”. -Murmura contrariado Aparecido.
Ele não aguentou. Aumentou o volume do interfone e com voz firme advertiu: - Senhora! (a mulher levou um susto): - por favor (continuou ele), não deixe seu cachorro fazer suas coisas em nossa calçada.
 A mulher logo se recompôs. Soltou a cordinha do animal, se voltou para a cabine, onde estava o Aparecido e mesmo sem ver quem estava lá dentro (por causa do vidro escurecido) cerrou o punho, levantou bruscamente o braço em forma de gancho mandando a famigerada “banana”. Aparecido riu muito. Ele achou a cena muito engraçada: “Uma dama toda chique... que dizem que não sai das Europas (os porteiros da rua a chamam de Francesa) com os braços cheios de bugigangas dando banana no meio da calçada... Ah! É demais!”
 Sua alegria só foi interrompida pela chata do quarenta e três reclamando do som alto do 53 ou do 33...
-Dona Linda, não tem ninguém no 53 nem no 33. -Argumentou ele
-Então veja onde é e mande abaixar o volume. -Esbravejou ela.
-Pois não senhora.
Aparecido deixou a cabine e deu uma rápida volta ao redor do prédio constatando que o som vinha do edifício vizinho. Voltou e ligou para o seu colega do outro edifício pedindo para “dar uma olhadinha”.
Na passagem do dia para a noite Aparecido concentra sua atenção na entrada e saída dos carros e das pessoas. Pelo monitor ele acompanha o movimento na calçada que dá acesso a portaria. Observa que o Valter está chegando com a sua velha pasta de couro. Aparecido tem um carinho especial pelo “professor pardal”, como é chamado pelos amigos. Ele percebeu que Valter deu uma parada. Imediatamente abriu o som do interfone e perguntou:
-O que foi “dotor” Valter, precisa de alguma ajuda?
-Pisei! Me dá uma mãozinha aqui.
Aparecido pede para o Duda, o porteiro da noite, assumir seu lugar e vai acudi-lo. Era o coco da cachorra da ‘Francesa’ que ele se esquecera de limpar.
-Desculpe “dotor”... Na correria de hoje essa me passou batido.
-Deixa pra lá...
Aparecido leva a pasta do Valter para a cabine voltando com a mangueira e uma escova.
-O que você vai fazer? -Pergunta Valter
-Se apóia aí na grade e me dá aqui esse sapato.
 Com água e a escova Aparecido remove a bosta da sola do sapato.
-Nossa que mau cheiro! (reclamou o Valter)
-Todo dia é isso...  Pronto! Aqui está (diz Aparecido enquanto devolve o sapato)
-Ora, ora Aparecido...  Não precisava (pegando o sapato). Fico lhe devendo essa.
-Que é isso “dotor”, fica devendo nada não.
No dia seguinte, lá estava o Valter concluindo testes de novas enzimas descobertas por ele no laboratório em que trabalhava. Eis que uma das reações ocorridas lhe chamou a atenção.  Ele não sabia bem porque o fez lembrar-se da “pisada” do dia anterior. De repente lhe ocorreu uma ideia: “Epa!... É isso! Vou dar um presentinho para o Aparecido”.
Chegando ao prédio, Aparecido lhe abre um sorriso:
-E aí “dotor” Valter... Hoje sem novidade?
-Aí é que você se engana.
 Valter coloca a pasta sobre o parapeito da janela da cabine e tira um tubo de acrílico:
-Olha o que eu trouxe para você!
Aparecido pega o tubo, põe contra a luz. Faz uma expressão de quem não entendeu nada:
-O que é isso “dotor”? (ainda olhando fixamente o tubo)... Parece areia grossa.
-É um “espanta-cachorro”
-E para que serve?
- Você faz vários montinhos onde os cachorros costumam fazer a sujeira, ele vê esta areia cheira e faz em cima dela.
- Mas aí eu vou ter que limpar...
- Vai dar um trabalhinho na primeira vez, mas, se tudo correr bem, eles não voltarão mais.
 -Ah! Não fique por perto, é melhor ficar na cabine. –Alerta Valter.
Aquela recomendação o deixou intrigado.
Na manhã seguinte, logo após a limpeza, ele colocou o produto formando pequenos montinhos em locais diferentes ao longo da calçada. Pegou um pouco na mão, esfregou entre os dedos: “É... isso pra mim não passa de areia... mas, vamos ver no que vai dar”. Depois entrou para a cabine e ficou aguardando ansioso. O primeiro a passar com um cachorro foi uma senhora e vinha a rigor: com luva, pazinha e saquinho para recolher as fezes do seu cão. Ela não passou pela calçada. Algum tempo depois veio a empregada do “Stylus” com a Ágata. A cachorrinha pára, cheira a “areia”, mas a Salete dá-lhe um forte puxão e sai arrastando ela pela calçada afora.
Aparecido já estava perdendo a esperança de saber como funcionava aquele “negócio”. Desanimado ligou o rádio num volume baixo e começou a organizar as correspondências para entregar nos apartamentos. Quando ele levanta os olhos para checar as redondezas...
Surpresa!!! Bem de frente para a guarita, lá estava a “Francesa”. Vestida com uma calça branca, camisa bege claro e sapatos areia. Dessa vez com dois cachorrinhos. Postava-se de forma desafiadora bem de frente para a cabine, embora o vidro escurecido não permitisse que ela identificasse quem estava lá dentro. Um dos cachorrinhos foi direto para o montinho de “areia”: cheirou, fuçou de leve, cheirou de novo... deu a costa para a “areia” e foi se posicionando sobre ela para executar o “serviço”. A dona falou em tom de desafio:
- Pode fazer à vontade fofinho que eu quero ver quem vai ousar dizer alguma coisa. O segundo animal também se ajeitava em outro monte. Aparecido via e ouvia tudo bem quietinho.  De repente ouve-se uma série de fortes estalidos: - Pá! Pá! Pá! Pá! Pá! Pá!  Os dois cachorrinhos soltam gemidos e saltam para frente assustados. A “Francesa” vocifera um “puta que pariu!” enquanto tenta se desvencilhar dos seus “fofinhos”.
Aparecido se assusta, levanta bruscamente e abre a porta da guarita. Mas com a visão total da cena, seu susto e sua apreensão dão lugar a um incontrolável acesso de riso: Os grãos de “areia” (na verdade um tipo de enzima) estouraram como se fossem pipocas jogando as fezes dos cães para todos os lados. A “Francesa” olhava incrédula para sua roupa nova salpicada de merda e os cachorrinhos, também “merdados”, roçavam nas pernas dela como se buscassem um carinho, enquanto ela tentava afastá-los empurrando-os com os pés, aos palavrões. O cheiro era insuportável.
Aparecido de alma lavada e ainda rindo muito, voltou para sua guarita. Lá, o rádio que ele deixara ligado ironicamente tocava “O Rock da Cachorra”.


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