quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

A INVASÃO AMERICANA

                                      A INVASÃO AMERICANA

Paletó pendurado no ombro por um dedo em gancho, lá vinha Silva, à toa, passeando os olhos sobre as fachadas dos antigos edifícios da Rua Boa Vista. Pára vez em quando, vasculhando todo o perfil de prédios situados do outro lado da rua. Seus olhos os percorrem como se fossem uma filmadora: da feia calçada que afrontam imponentes portas de estilo clássico até enxergar um pedacinho do céu sobre os altos das construções. Silva faz isso quase todos os dias, como se fosse uma terapia ou uma fuga...
Nesse dia, ele não sabe por que veio a sua memória a destruição das históricas estátuas do Afeganistão pelos Talibãs e dos palácios do Iraque pelos americanos: “um pelo fanatismo o outro pelo belicismo” (pensa ele).
O movimento começa a crescer rapidamente e lhe tira a descontração. Nos infoscafé espalhados pela rua, o entra e sai de pessoas já é acentuado. Silva adentra no info habitual e se dirige para o Sato seu conhecido atendente:
- Oi Sato, bom dia!
- Bom dia! Sr. Silva... O de sempre?
- É... Mas me traz um copo d'água antes enquanto dou uma olhadinha no NOTI.
O NOTI era um painel de tela plana sobre um pedestal levemente inclinado a uma altura de um metro do chão. Sobre essa tela iam correndo as notícias de todo o mundo em tempo real.
O Sato lhe entregou o copo d’água enquanto o Silva de olho no painel, selecionava as agências noticiosas através de um leve toque na tela. Pegou o copo e, sem tirar os olhos, ia selecionando a agência de notícias americana ANN (American National Notices). De repente a aparência relaxada de Silva assumiu ares de certa tensão. A principal manchete era sobre o Brasil: “A CIA ALERTA O GOVERNO AMERICANO PARA O RISCO DE UM BRAZIL NÃO ALINHADO”.
Ele parou o texto, releu e quase que instintivamente amassou o copo com força. Se percebendo, distensionou a mão. Mas a pressão de sua mão sobre o vasilhame de polímero fez com que o fundo se voltasse para frente deixando à mostra a informação do fabricante da água: “Water World Company”. A água que ele sempre bebeu como “Lourenço de Minas”...  Silva arremessou com raiva o vasilhame no triturador de recicláveis do Infocafé. Sua atitude chamou a atenção dos presentes, principalmente do Sato que há muito o tinha como um sujeito pacato e brincalhão.
- O que foi Sr. Silva... Tinha alguma coisa na água? (perguntou o Sato)
- Desculpe-me Sato... Não, não tinha nada...
- O senhor está bem? (insistiu ele).
- Sim... Sim... Ah! Meu cafezinho está pronto?
- Acabei de aprontar... Espero que esteja do seu gosto.
Silva tomou o café. Parecia saborear como nunca. Sato disfarçadamente acompanhou cada gole dele e o viu satisfeito abrir um sorriso agradecendo-lhe pelo café:
-Sato seu café está ótimo!
Assim que Silva deixou o local, Sato correu para o NOTI para ver o que teria alterado o humor de seu amigo. Ainda estava estático o texto da ANN em inglês. Ele leu, mas continuou sem entender o motivo do rompante do Silva. Deu mais uma olhadinha no painel e percebeu que as notícias voltaram a correr normalmente. “É realmente o Sr. Silva não está legal" (pensa o Sato): normalmente quando ele acabava a leitura dava uns toques na tela e, durante algum tempo, os textos de diversas agências noticiosas ficavam se intercalando nos mais diversos idiomas, deixando o pessoal que ia ler depois dele louco da vida batendo no painel...
Silva na sua juventude foi um dos mais audaciosos hackers do Brasil e talvez do mundo. Mas os serviços de inteligência brasileiros conseguiram identificá-lo e cooptá-lo. Montaram para ele um moderno e complexo laboratório de informática. Assim Silva se tornou agente e chefe de uma importante equipe de proteção da rede de informação do governo. Também era indicado para resolver problemas de invasão em redes privadas de empresas inclusive multinacionais instaladas no Brasil. Ele era muito discreto e mesmo suas grandes descobertas nessa área não as divulgavam.
Silva sai do infocafé, atravessa a rua e entra no edifício onde trabalha. Tido como uma pessoa muito querida, todos o cumprimenta ou fazem algum tipo de brincadeira, desde o acesso até seu pequeno QG.
Na entrada de seu departamento a porta entreaberta exibe uma enorme bandeira brasileira gravada em alto relevo na madeira. Ao se aproximar, ele observa que seus cinco auxiliares estavam em frente à grande tela central como que observando atentamente alguma coisa. Assim que ele adentra a sala, Paulo seu mais ativo colaborador, sai do grupo todo entusiasmado e o chama:
 - Chefe! Chefe! Olha só o que nós conseguimos!
O grupo abre espaço, Silva se aproxima da tela e vê um enorme globo cheio de gráficos e pontos.
- O que é isso?  (pergunta enquanto seus olhos investigam o conjunto).
- É o rastreamento da rede de satélites americanos sobre a América do Sul (responde o eufórico Paulo)
-O quê!!!  Quando isso..?
-Agora! Em tempo real (interrompeu Japonês).
Silva se aproximou mais da tela e murmurou: - Rapaz... Isso é uma loucura!  Como vocês conseguiram?
- O Japonês estava fazendo a varredura nas intercomunicações de centros de processamentos e identificou sinais diferentes de todos aqueles cadastrados em nossos sistemas. Então ele resolveu rastrear e descobriu que vinha de fonte externa compatíveis com os emitidos pelos decodificadores dos satélites americanos. Paulo ligou no Centro Aeroespacial de Brasília eles confirmaram a presença física dos satélites nessa região. (relatou a Cida)
- O Sérgio criou um efeito multimídia sobre o rastreamento do Japonês o que possibilitou agente chegar aos pontos de origem (completou Paulo).
 - O que a gente estranhou (interrompe Jeferson) é que eles estão utilizando uma freqüência diferente da convencional para capturar dados, mas a Aeronáutica nos informou que eles estão mapeando cidades de toda a América do Sul a serviço de um site de pesquisa.
  Paulo, Jeferson, Cida, Sérgio e Japonês constituem a equipe do Silva.
  No início quando ele foi chamado pelo serviço de inteligência trabalhava sozinho, mas com a rápida multiplicação das interferências nas redes propôs à cúpula a criação de uma equipe que pudesse além de dar proteção ao sistema, criar ferramentas para viabilizar as novas demandas geradas pelas decisões da Alta Inteligência.
O Info-laboratório foi montado já com a participação de toda a equipe. A relação entre Silva e sua equipe era de total confiança: eles trabalhavam duro para conseguir atender a todas as solicitações, mas não informavam como conseguiam, era quase que um código de ética.
       Silva era todo entusiasmo diante do feito de seus meninos. Olhavam fascinado para aquele painel cheio de pontos coloridos piscando, traços e mapas, como um pai observando os primeiros passos de um filho. De repente ficou sério e apurou as vistas. Aproximou-se mais da tela e em tom grave chamou: - Pessoal vem ver isto aqui!
A equipe que já ia se dispersando voltou bruscamente.
-O que foi chefe (perguntaram a Cida e o Sérgio simultaneamente)?
-Posso estar enganado, mas esses satélites não estão colhendo dados para mapa, pois parecem fixos em pontos específicos.
- Isso é fácil de saber (se adiantou Cida). Vamos sobrepor a esses pontos a atual posição geográfica do Brasil no globo.
Cida foi então até sua célula de trabalho e com rápidos e leves toques de comando fez aparecer o mapa do Brasil em 3D. De lá gritou para o Silva:
- Chefe, está na tela, posso transportar?
- Pode! (respondeu o Silva)
Imediatamente apareceu na tela central o mapa em cores bem suaves de forma que a superposição permitia ver claramente o mapa do Brasil sobre o globo terrestre, revelando certa quantidade de satélites sobre o Brasil.
Nossa! Por que tanta concentração de satélite sobre o nosso país? (perguntou o Japonês).
- Faço uma pequena idéia... Mas vamos detalhar o mapa. (divagou Silva). Cida você ainda está com a réplica da tela central na sua célula?
- Sim. (respondeu de lá a Cida)
- Congele a imagem do satélite e detalhe no mapa aonde há a concentração dos pontos em que eles estão atuando (orientou o Silva).
Mais alguns rápidos toques no painel de sua célula e lá estavam:
- Pronto chefe! Posso transferir?
-Sim, mas transfira já com os endereços.
Com a nova configuração via-se que a incidência de sinais identificados pelo efeito multimídia estava direcionados para os principais centros de transmissão de movimentação financeiras em São Paulo, Brasília e Rio.
Cida chegou correndo de sua célula e deparou com o pessoal mais que hipnotizado pela figura formada no telão central. Quebrando o silêncio perguntou: - Por que os Americanos estariam interessados em vasculhar esses edifícios?
-É que esses não são quaisquer edifícios (sentenciou Silva)... Nesses prédios se concentram computadores e sistemas de transmissão de mais de noventa por cento de todas as transações financeiras do País.
-Nooossa...! Chefe.
É... Vocês já imaginaram se eles entram nesses sistemas de transações o estrago que podem fazer!?
- Sim, mas todas essas instituições têm arquivos de segurança “descolado” a um segundo do tempo real e com centro de auto-checagem e correção... Poderia levar semanas até conseguirem invadir a “rede” o que chamaria a atenção... (dissertou Paulo...)
- Esses sistemas não são totalmente confiáveis (alertou Silva), pois a maioria utiliza tecnologia americana. O que pode estar inibindo, é o escudo que nós implantamos sem o conhecimento dessas instituições.
- Mas como você sabe se eles já não entraram?
- Primeiro porque a o comando da AI não me chamou, segundo por que ainda continuam os satélites sobre os mesmos pontos.
De repente, Paulo solta seu vozeirão do meio da turma, chamando à atenção:
-Que paranóia é essa!? Só porque alguns satélites resolveram “descansar” num lugar, agente já acha que estão se preparando para invadir o Brasil!?
O pessoal cai na gargalhada menos o Silva que só suaviza as feições, enquanto se levanta e se dirige ao grupo.
- É o Paulo tem alguma razão... A paranóia é minha. É que eu estava na expectativa de alguma atitude hostil dos Americanos,  não esperava algo tão sutil.
- Chefe! Quantos mistérios...! (interrompeu a Cida)
- Por recomendação nossa (continuou Silva) o presidente da república irá vetar uma lei que indiretamente daria aos americanos o controle das águas potáveis dos subsolos do Brasil através das concessões a Water World Company.
-Como assim? (Cida)
-O congresso aprovou uma lei que delegava aos municípios total autonomia sobre a concessão de recursos hídricos. Só que os principais lençóis freáticos estão em municípios em que a abundância da água leva ao desperdício. A WWC já contatou os prefeitos desses locais oferecendo uma verdadeira montanha de dólar para ter o controle da concessão prometendo exportar todo o excedente e ainda baratear o preço local.
- E isso não é bom? (indagou Jeferson)
-Seria... Só que a AI compilou os valores oferecidos a todos os municípios e chegou a um total de quinhentos bilhões de dólares pela concessão por trinta anos.
- Puta que pariu! De onde vêm todos esses dólares? (Japonês)
- Certamente o governo americano está por trás disso, nenhuma empresa investiria nessa magnitude... Deve sair do tesouro deles.
- Sim! Mas e daí? (Pedro)
- Ocorre que tivemos acesso a uma minuta do termo de concessão e não existe qualquer definição do que é “excedente” e o controle de vazão será feito por um complexo sistema cuja tecnologia que só a CIA manipula.
- Vão levar água para Marte? (Japonês)
- Estudos científicos que vazaram, mostram que daqui a quinze anos ou menos os americanos não terão água potável para o mesmo nível de conforto de hoje, mesmo aumentando a importação de partes de geleiras dos hemisférios.
-Mas chefe, como é que nossos congressistas não desconfiaram quando da apresentação dessa lei?
-Lembram-se daquela excursão aos paraísos naturais do mundo bancadas por uma ONG?
- Sim,  foram diversos políticos com o apelo da formação de uma consciência conservacionista.
-Pois é... Gastou-se uma fortuna, ninguém pagou nada e ainda voltaram com uma série de lembrancinhas exóticas, tudo bancado pela ONG...
Silva sabia que desde as invasões de contas corporativas a partir de celulares o presidente da república ordenou a centralização de transferência de grandes valores pelo Banco Central que adotou a transmissão por meio físico (fios e cabos). Assim o único ponto vulnerável seria a uma ação desse tipo nas centrais de processamento, nos buffers e modens. O estrago poderia ser grande a ponto de abalar a presidência da república.
Ele sai discretamente do grupo pega uma chave, abre um cofre (não cofiava em fechaduras digitais). Volta com uma espécie de miniatura de CD dourado e, se dirigindo ao surpreso grupo, instiga:  
-Ta na hora de mostrarmos a eles que não produzimos só minério de ferro, petróleo e bundas.
A estatura mediana, gestos simples e tímido escondiam um grande cientista da área de informática. Em quase tudo que fazia Silva induzia leis e princípios que muitas vezes lhes proporcionavam descobertas fantásticas e surpreendentes pela simplicidade revelada na origem de coisas ditas e reverenciadas como complexas. Assim, enquanto trabalhava no combate a invasão das redes foi mapeando os caminhos que os hackers utilizavam para penetrar nos superprotegidos sistemas.
Após muito tempo de estudos chegou ao que chamou de “princípios de proteção de todos os softwares”: funcionam como uma teia de aranha cheia de pequenos “nós” que formam uma espécie de proteção para um “nó” central. Quando um “nó” é desfeito por um “intruso” cada “fio” solto forma outros “nós” que vão resistindo à invasão, além de enviar sinais da tentativa de “ocupação” ao núcleo de comandos. Silva descobriu uma forma que a invés de tentar desfazer os nós, o sinal-espião seguia o “fio” fazendo todo o percurso do “nó” até atingir esse núcleo ficando o sistema totalmente a mercê do intruso, com acesso a toda a linguagem informativa. Estava aberta a porteira.

- Chefe o que é isso?  (Cida)
- Eu chamo de “paparazzi”, é resultado de muitos anos de pesquisa e agora chegou à hora de usar... Japonês: - coloca esse cd no drive máster. Cida: - localize e conecte o centro de processamento do BC e dos bancos que acredito serem as áreas de maior interesse deles. Jeferson: - vá para o painel central para monitorar o caminho dos “paparazzi” ele tem efeito multimídia que possibilita visualizá-lo.
Começa então uma correria onde cada um procura se posicionar conforme o comando do chefe. Alguns segundos depois o pessoal já está com a mão na massa.
- Chefe! (chama a Cida) as principais centrais de processamento já estão conectadas só faltas sua liberação.
Silva tira do bolso um pequeno controle remoto, aponta na direção da estação de trabalho da Cida, liberando as conexões. Se volta para o Japonês:
- Pulveriza os “paparazzi” na conexão da Cida e pode “injetar”.
- Chefe, ela não vai afetar também nossos sistemas antes de atingir o alvo? (pondera o Japonês).
- Não! Nossos sistemas tem uma espécie de vacina que fará com que os “paparazzi” fique flutuando sem interagir, mas o intruso "lê” como um dado novo a ser pilhado e vai transferi-lo. Quando o programa deles for filtrar as informações, automaticamente vão liberar os “paparazzi”... Aí vai ser uma festa!
- Chefe, cá entre nós... O que é mesmo esses “paparazzi”? (questiona Cida)
- São milhões de diferentes vírus encapsulados configurados como números.
- Nooossa!!!!

No dia seguinte, Silva estava ansioso: caminhava rapidamente pela Rua Boa Vista. Nem parou para aquela ligeira troca de idéias com o mendigo chique que ficava na calçada antes do banco abrir.  Adentra ao Infocafé e vai direto para o NOTI. Sequer observou a saudação do seu amigo Sato.  Acessa a ANN devorando cada noticia e... Lá estava: “... Lideranças do congresso americano rebatem declarações do pentágono e declaram que o Brasil é um importante e confiável parceiro”. Silva fecha as mãos e como se fosse um pugilista soca o ar soltando um “Yes!”. Todos no info se voltam surpresos para ele, mas Silva disfarça e continua percorrendo o NOTI. Mais à frente uma pequena nota do noticioso Russo dando conta do “sumiço” de satélites americanos da nova geração... “Concebidos pela NASA e geridos pelo Pentágono” concluía a nota.

obs. conto escrito em 2008
Loamy 

domingo, 8 de dezembro de 2013

UMA CALÇADA EM MOEMA

UMA CALÇADA EM MOEMA


DA SÉRIE:
PARECE FICÇÃO

AUTOR: Loamy f. Sá



-Bom dia! Aparecido.
-Bom dia! “Dotor” Valter
-Na luta com a vassoura logo cedo!?
-É... Vassoura, rodo, mangueira...
-Deixa de ser chorão, vaaai...
-É que o senhor não sabe quantas vezes eu limpo bosta de cachorro nesta calçada.
-Aaahahaha!
Valter deu uma gargalhada que ecoou no silêncio da rua. Depois (saindo), passou carinhosamente a mão no ombro de Aparecido e se despediu: - Até a noite Aparecido. “Bosta de cachorro” repetia rindo o Valter.
Aparecido continuou seu serviço: jogou detergente, lavou a calçada e regou a grama. Depois ajeitou a placa com o aviso: "NOSSA CALÇADA NÃO É BANHEIRO DE CACHORRO’. Voltou então para reassumir seu posto na cabine de segurança. Mal se sentou e... Lá vem a madame de nariz empinado com seu cachorrinho também de nariz empinado. De repente o lulu pára, se acomoda todo e... “Puta-que-pariu! E é dos moles”. -Murmura contrariado Aparecido.
Ele não aguentou. Aumentou o volume do interfone e com voz firme advertiu: - Senhora! (a mulher levou um susto): - por favor (continuou ele), não deixe seu cachorro fazer suas coisas em nossa calçada.
 A mulher logo se recompôs. Soltou a cordinha do animal, se voltou para a cabine, onde estava o Aparecido e mesmo sem ver quem estava lá dentro (por causa do vidro escurecido) cerrou o punho, levantou bruscamente o braço em forma de gancho mandando a famigerada “banana”. Aparecido riu muito. Ele achou a cena muito engraçada: “Uma dama toda chique... que dizem que não sai das Europas (os porteiros da rua a chamam de Francesa) com os braços cheios de bugigangas dando banana no meio da calçada... Ah! É demais!”
 Sua alegria só foi interrompida pela chata do quarenta e três reclamando do som alto do 53 ou do 33...
-Dona Linda, não tem ninguém no 53 nem no 33. -Argumentou ele
-Então veja onde é e mande abaixar o volume. -Esbravejou ela.
-Pois não senhora.
Aparecido deixou a cabine e deu uma rápida volta ao redor do prédio constatando que o som vinha do edifício vizinho. Voltou e ligou para o seu colega do outro edifício pedindo para “dar uma olhadinha”.
Na passagem do dia para a noite Aparecido concentra sua atenção na entrada e saída dos carros e das pessoas. Pelo monitor ele acompanha o movimento na calçada que dá acesso a portaria. Observa que o Valter está chegando com a sua velha pasta de couro. Aparecido tem um carinho especial pelo “professor pardal”, como é chamado pelos amigos. Ele percebeu que Valter deu uma parada. Imediatamente abriu o som do interfone e perguntou:
-O que foi “dotor” Valter, precisa de alguma ajuda?
-Pisei! Me dá uma mãozinha aqui.
Aparecido pede para o Duda, o porteiro da noite, assumir seu lugar e vai acudi-lo. Era o coco da cachorra da ‘Francesa’ que ele se esquecera de limpar.
-Desculpe “dotor”... Na correria de hoje essa me passou batido.
-Deixa pra lá...
Aparecido leva a pasta do Valter para a cabine voltando com a mangueira e uma escova.
-O que você vai fazer? -Pergunta Valter
-Se apóia aí na grade e me dá aqui esse sapato.
 Com água e a escova Aparecido remove a bosta da sola do sapato.
-Nossa que mau cheiro! (reclamou o Valter)
-Todo dia é isso...  Pronto! Aqui está (diz Aparecido enquanto devolve o sapato)
-Ora, ora Aparecido...  Não precisava (pegando o sapato). Fico lhe devendo essa.
-Que é isso “dotor”, fica devendo nada não.
No dia seguinte, lá estava o Valter concluindo testes de novas enzimas descobertas por ele no laboratório em que trabalhava. Eis que uma das reações ocorridas lhe chamou a atenção.  Ele não sabia bem porque o fez lembrar-se da “pisada” do dia anterior. De repente lhe ocorreu uma ideia: “Epa!... É isso! Vou dar um presentinho para o Aparecido”.
Chegando ao prédio, Aparecido lhe abre um sorriso:
-E aí “dotor” Valter... Hoje sem novidade?
-Aí é que você se engana.
 Valter coloca a pasta sobre o parapeito da janela da cabine e tira um tubo de acrílico:
-Olha o que eu trouxe para você!
Aparecido pega o tubo, põe contra a luz. Faz uma expressão de quem não entendeu nada:
-O que é isso “dotor”? (ainda olhando fixamente o tubo)... Parece areia grossa.
-É um “espanta-cachorro”
-E para que serve?
- Você faz vários montinhos onde os cachorros costumam fazer a sujeira, ele vê esta areia cheira e faz em cima dela.
- Mas aí eu vou ter que limpar...
- Vai dar um trabalhinho na primeira vez, mas, se tudo correr bem, eles não voltarão mais.
 -Ah! Não fique por perto, é melhor ficar na cabine. –Alerta Valter.
Aquela recomendação o deixou intrigado.
Na manhã seguinte, logo após a limpeza, ele colocou o produto formando pequenos montinhos em locais diferentes ao longo da calçada. Pegou um pouco na mão, esfregou entre os dedos: “É... isso pra mim não passa de areia... mas, vamos ver no que vai dar”. Depois entrou para a cabine e ficou aguardando ansioso. O primeiro a passar com um cachorro foi uma senhora e vinha a rigor: com luva, pazinha e saquinho para recolher as fezes do seu cão. Ela não passou pela calçada. Algum tempo depois veio a empregada do “Stylus” com a Ágata. A cachorrinha pára, cheira a “areia”, mas a Salete dá-lhe um forte puxão e sai arrastando ela pela calçada afora.
Aparecido já estava perdendo a esperança de saber como funcionava aquele “negócio”. Desanimado ligou o rádio num volume baixo e começou a organizar as correspondências para entregar nos apartamentos. Quando ele levanta os olhos para checar as redondezas...
Surpresa!!! Bem de frente para a guarita, lá estava a “Francesa”. Vestida com uma calça branca, camisa bege claro e sapatos areia. Dessa vez com dois cachorrinhos. Postava-se de forma desafiadora bem de frente para a cabine, embora o vidro escurecido não permitisse que ela identificasse quem estava lá dentro. Um dos cachorrinhos foi direto para o montinho de “areia”: cheirou, fuçou de leve, cheirou de novo... deu a costa para a “areia” e foi se posicionando sobre ela para executar o “serviço”. A dona falou em tom de desafio:
- Pode fazer à vontade fofinho que eu quero ver quem vai ousar dizer alguma coisa. O segundo animal também se ajeitava em outro monte. Aparecido via e ouvia tudo bem quietinho.  De repente ouve-se uma série de fortes estalidos: - Pá! Pá! Pá! Pá! Pá! Pá!  Os dois cachorrinhos soltam gemidos e saltam para frente assustados. A “Francesa” vocifera um “puta que pariu!” enquanto tenta se desvencilhar dos seus “fofinhos”.
Aparecido se assusta, levanta bruscamente e abre a porta da guarita. Mas com a visão total da cena, seu susto e sua apreensão dão lugar a um incontrolável acesso de riso: Os grãos de “areia” (na verdade um tipo de enzima) estouraram como se fossem pipocas jogando as fezes dos cães para todos os lados. A “Francesa” olhava incrédula para sua roupa nova salpicada de merda e os cachorrinhos, também “merdados”, roçavam nas pernas dela como se buscassem um carinho, enquanto ela tentava afastá-los empurrando-os com os pés, aos palavrões. O cheiro era insuportável.
Aparecido de alma lavada e ainda rindo muito, voltou para sua guarita. Lá, o rádio que ele deixara ligado ironicamente tocava “O Rock da Cachorra”.