A INVASÃO
AMERICANA
Paletó pendurado
no ombro por um dedo em gancho, lá vinha Silva, à toa, passeando os olhos sobre
as fachadas dos antigos edifícios da Rua Boa Vista. Pára vez em quando,
vasculhando todo o perfil de prédios situados do outro lado da rua. Seus olhos
os percorrem como se fossem uma filmadora: da feia calçada que afrontam
imponentes portas de estilo clássico até enxergar um pedacinho do céu sobre os
altos das construções. Silva faz isso quase todos os dias, como se fosse uma
terapia ou uma fuga...
Nesse dia, ele
não sabe por que veio a sua memória a destruição das históricas estátuas do Afeganistão
pelos Talibãs e dos palácios do Iraque pelos americanos: “um pelo fanatismo o
outro pelo belicismo” (pensa ele).
O movimento começa
a crescer rapidamente e lhe tira a descontração. Nos infoscafé espalhados pela
rua, o entra e sai de pessoas já é acentuado. Silva adentra no info habitual e
se dirige para o Sato seu conhecido atendente:
- Oi Sato, bom
dia!
- Bom dia! Sr. Silva...
O de sempre?
- É... Mas me
traz um copo d'água antes enquanto dou uma olhadinha no NOTI.
O NOTI era um
painel de tela plana sobre um pedestal levemente inclinado a uma altura de um
metro do chão. Sobre essa tela iam correndo as notícias de todo o mundo
em tempo real.
O Sato lhe
entregou o copo d’água enquanto o Silva de olho no painel, selecionava as
agências noticiosas através de um leve toque na tela. Pegou o copo e, sem
tirar os olhos, ia selecionando a agência de notícias americana ANN (American
National Notices). De repente a aparência relaxada de Silva assumiu ares de certa
tensão. A principal manchete era sobre o Brasil: “A CIA ALERTA O GOVERNO
AMERICANO PARA O RISCO DE UM BRAZIL NÃO ALINHADO”.
Ele parou o
texto, releu e quase que instintivamente amassou o copo com força. Se percebendo,
distensionou a mão. Mas a pressão de sua mão sobre o vasilhame de polímero fez
com que o fundo se voltasse para frente deixando à mostra a informação do
fabricante da água: “Water World Company”. A água que ele sempre bebeu como “Lourenço
de Minas”... Silva arremessou com raiva
o vasilhame no triturador de recicláveis do Infocafé. Sua atitude chamou a
atenção dos presentes, principalmente do Sato que há muito o tinha como um sujeito pacato e brincalhão.
- O que foi Sr.
Silva... Tinha alguma coisa na água? (perguntou o Sato)
- Desculpe-me Sato...
Não, não tinha nada...
- O senhor está
bem? (insistiu ele).
- Sim... Sim... Ah!
Meu cafezinho está pronto?
- Acabei de aprontar...
Espero que esteja do seu gosto.
Silva tomou o café.
Parecia saborear como nunca. Sato disfarçadamente acompanhou cada gole dele e o viu satisfeito abrir um sorriso agradecendo-lhe pelo café:
-Sato seu café
está ótimo!
Assim que Silva
deixou o local, Sato correu para o NOTI para ver o que teria alterado o humor de
seu amigo. Ainda estava estático o texto da ANN em inglês. Ele leu, mas
continuou sem entender o motivo do rompante do Silva. Deu mais uma olhadinha no
painel e percebeu que as notícias voltaram a correr normalmente. “É realmente o
Sr. Silva não está legal" (pensa o Sato): normalmente quando ele acabava a
leitura dava uns toques na tela e, durante algum tempo, os textos de diversas
agências noticiosas ficavam se intercalando nos mais diversos idiomas, deixando
o pessoal que ia ler depois dele louco da vida batendo no painel...
Silva na sua
juventude foi um dos mais audaciosos hackers do Brasil e talvez do mundo. Mas os
serviços de inteligência brasileiros conseguiram identificá-lo e cooptá-lo. Montaram
para ele um moderno e complexo laboratório de informática. Assim Silva se
tornou agente e chefe de uma importante equipe de proteção da rede de
informação do governo. Também era indicado para resolver problemas de invasão
em redes privadas de empresas inclusive multinacionais instaladas no Brasil.
Ele era muito discreto e mesmo suas grandes descobertas nessa área não as
divulgavam.
Silva sai do infocafé,
atravessa a rua e entra no edifício onde trabalha. Tido como uma pessoa muito
querida, todos o cumprimenta ou fazem algum tipo de brincadeira, desde o acesso
até seu pequeno QG.
Na entrada de
seu departamento a porta entreaberta exibe uma enorme bandeira brasileira
gravada em alto relevo na madeira. Ao se aproximar, ele observa que seus cinco
auxiliares estavam em frente à grande tela central como que observando
atentamente alguma coisa. Assim que ele adentra a sala, Paulo seu mais ativo
colaborador, sai do grupo todo entusiasmado e o chama:
- Chefe! Chefe! Olha só o que nós conseguimos!
O grupo abre
espaço, Silva se aproxima da tela e vê um enorme globo cheio de gráficos e
pontos.
- O que é isso? (pergunta enquanto seus olhos investigam o
conjunto).
- É o
rastreamento da rede de satélites americanos sobre a América do Sul (responde o
eufórico Paulo)
-O quê!!! Quando isso..?
-Agora! Em tempo
real (interrompeu Japonês).
Silva se
aproximou mais da tela e murmurou: - Rapaz... Isso é uma loucura! Como vocês conseguiram?
- O Japonês
estava fazendo a varredura nas intercomunicações de centros de processamentos e
identificou sinais diferentes de todos aqueles cadastrados em nossos sistemas.
Então ele resolveu rastrear e descobriu que vinha de fonte externa compatíveis
com os emitidos pelos decodificadores dos satélites americanos. Paulo ligou no
Centro Aeroespacial de Brasília eles confirmaram a presença física dos
satélites nessa região. (relatou a Cida)
- O Sérgio criou
um efeito multimídia sobre o rastreamento do Japonês o que possibilitou agente
chegar aos pontos de origem (completou Paulo).
- O que a gente estranhou (interrompe Jeferson)
é que eles estão utilizando uma freqüência diferente da convencional para
capturar dados, mas a Aeronáutica nos informou que eles estão mapeando cidades
de toda a América do Sul a serviço de um site de pesquisa.
Paulo, Jeferson, Cida, Sérgio e Japonês
constituem a equipe do Silva.
No início quando ele foi chamado pelo serviço
de inteligência trabalhava sozinho, mas com a rápida multiplicação das
interferências nas redes propôs à cúpula a criação de uma equipe que pudesse
além de dar proteção ao sistema, criar ferramentas para viabilizar as novas
demandas geradas pelas decisões da Alta Inteligência.
O
Info-laboratório foi montado já com a participação de toda a equipe. A relação
entre Silva e sua equipe era de total confiança: eles trabalhavam duro para
conseguir atender a todas as solicitações, mas não informavam como conseguiam,
era quase que um código de ética.
Silva era todo entusiasmo diante do
feito de seus meninos. Olhavam fascinado para aquele painel cheio de pontos
coloridos piscando, traços e mapas, como um pai observando os primeiros passos
de um filho. De repente ficou sério e apurou as vistas. Aproximou-se mais da
tela e em tom grave chamou: - Pessoal vem ver isto aqui!
A equipe que já
ia se dispersando voltou bruscamente.
-O que foi chefe
(perguntaram a Cida e o Sérgio simultaneamente)?
-Posso estar
enganado, mas esses satélites não estão colhendo dados para mapa, pois parecem
fixos em pontos específicos.
- Isso é fácil
de saber (se adiantou Cida). Vamos sobrepor a esses pontos a atual posição
geográfica do Brasil no globo.
Cida foi então
até sua célula de trabalho e com rápidos e leves toques de comando fez aparecer
o mapa do Brasil em 3D. De lá gritou para o Silva:
- Chefe, está na
tela, posso transportar?
- Pode!
(respondeu o Silva)
Imediatamente
apareceu na tela central o mapa em cores bem suaves de forma que a superposição
permitia ver claramente o mapa do Brasil sobre o globo terrestre, revelando
certa quantidade de satélites sobre o Brasil.
Nossa! Por que
tanta concentração de satélite sobre o nosso país? (perguntou o Japonês).
- Faço uma
pequena idéia... Mas vamos detalhar o mapa. (divagou Silva). Cida você ainda está
com a réplica da tela central na sua célula?
- Sim.
(respondeu de lá a Cida)
- Congele a
imagem do satélite e detalhe no mapa aonde há a concentração dos pontos em que
eles estão atuando (orientou o Silva).
Mais alguns
rápidos toques no painel de sua célula e lá estavam:
- Pronto chefe!
Posso transferir?
-Sim, mas
transfira já com os endereços.
Com a nova configuração
via-se que a incidência de sinais identificados pelo efeito multimídia estava
direcionados para os principais centros de transmissão de movimentação
financeiras em São Paulo, Brasília e Rio.
Cida chegou
correndo de sua célula e deparou com o pessoal mais que hipnotizado pela figura
formada no telão central. Quebrando o silêncio perguntou: - Por que os
Americanos estariam interessados em vasculhar esses edifícios?
-É que esses não
são quaisquer edifícios (sentenciou Silva)... Nesses prédios se concentram
computadores e sistemas de transmissão de mais de noventa por cento de todas as
transações financeiras do País.
-Nooossa...! Chefe.
É... Vocês já
imaginaram se eles entram nesses sistemas de transações o estrago que podem fazer!?
- Sim, mas todas
essas instituições têm arquivos de segurança “descolado” a um segundo do tempo
real e com centro de auto-checagem e correção... Poderia levar semanas até
conseguirem invadir a “rede” o que chamaria a atenção... (dissertou Paulo...)
- Esses sistemas
não são totalmente confiáveis (alertou Silva), pois a maioria utiliza
tecnologia americana. O que pode estar inibindo, é o escudo que nós implantamos
sem o conhecimento dessas instituições.
- Mas como você
sabe se eles já não entraram?
- Primeiro
porque a o comando da AI não me chamou, segundo por que ainda continuam os
satélites sobre os mesmos pontos.
De repente,
Paulo solta seu vozeirão do meio da turma, chamando à atenção:
-Que paranóia é
essa!? Só porque alguns satélites resolveram “descansar” num lugar, agente já
acha que estão se preparando para invadir o Brasil!?
O pessoal cai na
gargalhada menos o Silva que só suaviza as feições, enquanto se levanta e se
dirige ao grupo.
- É o Paulo tem
alguma razão... A paranóia é minha. É que eu estava na expectativa de alguma
atitude hostil dos Americanos, não
esperava algo tão sutil.
- Chefe! Quantos
mistérios...! (interrompeu a Cida)
- Por
recomendação nossa (continuou Silva) o presidente da república irá vetar uma
lei que indiretamente daria aos americanos o controle das águas potáveis dos
subsolos do Brasil através das concessões a Water World Company.
-Como assim?
(Cida)
-O congresso
aprovou uma lei que delegava aos municípios total autonomia sobre a concessão
de recursos hídricos. Só que os principais lençóis freáticos estão em
municípios em que a abundância da água leva ao desperdício. A WWC já contatou
os prefeitos desses locais oferecendo uma verdadeira montanha de dólar para ter
o controle da concessão prometendo exportar todo o excedente e ainda baratear o
preço local.
- E isso não é
bom? (indagou Jeferson)
-Seria... Só que
a AI compilou os valores oferecidos a todos os municípios e chegou a um total
de quinhentos bilhões de dólares pela concessão por trinta anos.
- Puta que
pariu! De onde vêm todos esses dólares? (Japonês)
- Certamente o
governo americano está por trás disso, nenhuma empresa investiria nessa magnitude...
Deve sair do tesouro deles.
- Sim! Mas e
daí? (Pedro)
- Ocorre que
tivemos acesso a uma minuta do termo de concessão e não existe qualquer
definição do que é “excedente” e o controle de vazão será feito por um complexo
sistema cuja tecnologia que só a CIA manipula.
- Vão levar água
para Marte? (Japonês)
- Estudos
científicos que vazaram, mostram que daqui a quinze anos ou menos os americanos não
terão água potável para o mesmo nível de conforto de hoje, mesmo aumentando a
importação de partes de geleiras dos hemisférios.
-Mas chefe, como
é que nossos congressistas não desconfiaram quando da apresentação dessa lei?
-Lembram-se
daquela excursão aos paraísos naturais do mundo bancadas por uma ONG?
- Sim, foram
diversos políticos com o apelo da formação de uma consciência conservacionista.
-Pois é... Gastou-se
uma fortuna, ninguém pagou nada e ainda voltaram com uma série de lembrancinhas
exóticas, tudo bancado pela ONG...
Silva sabia que
desde as invasões de contas corporativas a partir de celulares o presidente da
república ordenou a centralização de transferência de grandes valores pelo
Banco Central que adotou a transmissão por meio físico (fios e cabos). Assim o
único ponto vulnerável seria a uma ação desse tipo nas centrais de
processamento, nos buffers e modens. O estrago poderia ser grande a ponto de
abalar a presidência da república.
Ele sai
discretamente do grupo pega uma chave, abre um cofre (não cofiava em fechaduras
digitais). Volta com uma espécie de miniatura de CD dourado e, se dirigindo ao
surpreso grupo, instiga:
-Ta na hora de
mostrarmos a eles que não produzimos só minério de ferro, petróleo e bundas.
A estatura mediana,
gestos simples e tímido escondiam um grande cientista da área de informática.
Em quase tudo que fazia Silva induzia leis e princípios que muitas vezes lhes
proporcionavam descobertas fantásticas e surpreendentes pela simplicidade
revelada na origem de coisas ditas e reverenciadas como complexas. Assim,
enquanto trabalhava no combate a invasão das redes foi mapeando os caminhos que
os hackers utilizavam para penetrar nos superprotegidos sistemas.
Após muito tempo
de estudos chegou ao que chamou de “princípios de proteção de todos os
softwares”: funcionam como uma teia de aranha cheia de pequenos “nós” que
formam uma espécie de proteção para um “nó” central. Quando um “nó” é desfeito
por um “intruso” cada “fio” solto forma outros “nós” que vão resistindo à
invasão, além de enviar sinais da tentativa de “ocupação” ao núcleo de comandos.
Silva descobriu uma forma que a invés de tentar desfazer os nós, o sinal-espião
seguia o “fio” fazendo todo o percurso do “nó” até atingir esse núcleo ficando
o sistema totalmente a mercê do intruso, com acesso a toda a linguagem
informativa. Estava aberta a porteira.
- Chefe o que é
isso? (Cida)
- Eu chamo de
“paparazzi”, é resultado de muitos anos de pesquisa e agora chegou à hora de
usar... Japonês: - coloca esse cd no drive máster. Cida: - localize e conecte o
centro de processamento do BC e dos bancos que acredito serem as áreas de maior
interesse deles. Jeferson: - vá para o painel central para monitorar o caminho dos
“paparazzi” ele tem efeito multimídia que possibilita visualizá-lo.
Começa então uma
correria onde cada um procura se posicionar conforme o comando do chefe. Alguns
segundos depois o pessoal já está com a mão na massa.
- Chefe! (chama
a Cida) as principais centrais de processamento já estão conectadas só faltas
sua liberação.
Silva tira do
bolso um pequeno controle remoto, aponta na direção da estação de trabalho da
Cida, liberando as conexões. Se volta para o Japonês:
- Pulveriza os
“paparazzi” na conexão da Cida e pode “injetar”.
- Chefe, ela não
vai afetar também nossos sistemas antes de atingir o alvo? (pondera o Japonês).
- Não! Nossos
sistemas tem uma espécie de vacina que fará com que os “paparazzi” fique
flutuando sem interagir, mas o intruso "lê” como um dado novo a ser
pilhado e vai transferi-lo. Quando o programa deles for filtrar as informações,
automaticamente vão liberar os “paparazzi”... Aí vai ser uma festa!
- Chefe, cá
entre nós... O que é mesmo esses “paparazzi”? (questiona Cida)
- São milhões de
diferentes vírus encapsulados configurados como números.
- Nooossa!!!!
No dia seguinte, Silva estava
ansioso: caminhava rapidamente pela Rua Boa Vista. Nem parou para aquela
ligeira troca de idéias com o mendigo chique que ficava na calçada antes do
banco abrir. Adentra ao Infocafé e vai
direto para o NOTI. Sequer observou a saudação do seu amigo Sato. Acessa a ANN devorando cada noticia e... Lá
estava: “... Lideranças do congresso americano rebatem declarações do pentágono
e declaram que o Brasil é um importante e confiável parceiro”. Silva fecha as
mãos e como se fosse um pugilista soca o ar soltando um “Yes!”. Todos no info
se voltam surpresos para ele, mas Silva disfarça e continua percorrendo o NOTI.
Mais à frente uma pequena nota do noticioso Russo dando conta do “sumiço” de satélites
americanos da nova geração... “Concebidos pela NASA e geridos pelo Pentágono” concluía
a nota.
obs. conto escrito em 2008
Loamy